Rio
Murilo Ferreira assumiu a presidência da Vale em maio.
Desde então, promove mudanças discretas de rumo a fim de "apaziguar"
a companhia e sua relação com os públicos interno e externo.
Duas delas, definidas recentemente, são marcantes: a
distribuição recorde de lucros e dividendos a acionistas e um generoso
reajuste, turbinado por um pacote extra de benefícios para empregados.
Neste ano, a Vale vai distribuir R$ 9 bilhões aos
acionistas, maior remuneração da história da companhia e o triplo do valor de
2010. Já os empregados - que tiveram a mais "fácil e cordial"
negociação em mais de uma década, segundo sindicalistas - receberam reajuste de
8,2% em novembro, "amarrado" a um aumento de 8% em 2012, além de
abono (R$ 1.200), bônus extra (R$ 500) e outras vantagens. Os índices superam a
inflação deste ano e a projetada para 2012. Estão ainda acima da média do setor
industrial.
Ferreira tenta, de um lado, melhorar a relação com os
empregados, abalada durante os anos de Roger Agnelli à frente da empresa. De
outro, procura agradar acionistas - governo, inclusive, via BNDES- e melhorar a
imagem da companhia com os investidores, tornando a ação mais atrativa em
tempos de queda do papel e da Bolsa.
Para Paulo Soares, presidente do Metabase (um dos
principais sindicatos de empregados da Vale) e representante dos empregados no
conselho de administração da mineradora, "nunca uma negociação salarial
foi tão tranquila".
Ele conta que, "pela primeira vez", os
sindicalistas foram recebidos pelo presidente da Vale. - Ele é gentil, cordial.
Não tem a truculência do Roger. Conseguimos muitos avanços.
Já Victor Pena, analista do Banco do Brasil, diz que as
grandes empresas "não têm muita saída" nas negociações com
empregados, pois uma greve custa mais do que conceder aumentos superiores à
inflação e outros benefícios.
Agrado
Segundo Soares, nas reuniões do conselho de
administração, o perfil conciliador de Ferreira sempre sobressai. O executivo,
diz, está sempre disposto a ouvir e debater temas -entre eles, a maior
remuneração aos acionistas, aprovada no conselho.
Para Mário Mariante, analista da corretora Planner, a
direção da Vale quis "fazer um agrado" aos acionistas e tornar o
papel da companhia "mais atrativo" num momento em que tinha sobra de
caixa.
- A Vale tem ótimos indicadores de endividamento e
excesso de caixa. A companhia vinha, nos últimos anos, distribuindo dividendos
sempre pouco acima do que a lei exige. Neste ano, com a queda das ações, resolveu
ampliar a remuneração aos acionistas e, assim, atrair investidores - diz Pena.
Para Pedro Galdi, da corretora SLW, a maior distribuição
de lucros não afeta o plano de investimentos da Vale, cuja projeção inicial,
porém, foi reduzida de US$ 24 bilhões para US$ 18 bilhões em 2011.
- A Vale tem caixa suficiente para ampliar dividendos e
tocar seus projetos.