Tamires Cabral
Sul Fluminense
Alisar, cachear, descolorir ou pintar. São diversas as
técnicas utilizadas para alterar a cor ou a estrutura do cabelo, assim como os
produtos químicos com essa finalidade são os mais variados. Porém, na busca
pelo cabelo tão sonhado, muitas pessoas acabam sendo expostas aos perigos que
alguns componentes e tratamentos executados podem causar.
Através do site e perfis do DIÁRIO DO VALE nas redes sociais, internautas contaram relatos e
expuseram dúvidas em relação a produtos para o cabelo. Dos fios descoloridos
que ficaram verdes a uma reação alérgica e lesões no couro cabeludo, são muitos
os sustos ocasionados pela falta de atenção e profissionalismo.
Leonara da Silva Souza contou que em dezembro do ano passado
decidiu fazer uma escova definitiva em um salão de beleza localizado na Vila
Santa Cecília, em Volta
Redonda; ela só não esperava que o tratamento enfraquecesse
seus cabelos ao ponto de fazê-los cair. Um resultado bem diferente dos fios
lisos e brilhantes que esperava.
- Meu cabelo estava nas costas e tive que cortar ele acima
do ombro. Caiu muito e até hoje está elástico e muito fraco - contou.
Já Lidiane da Rocha se disse acostumada com os infortúnios
provocados por alguns alisantes. Apesar de sofrer com alguns resultados,
permanece na busca do cabelo ideal.
- Quando vou fazer relaxamento ele precisa ser feito no
lavatório, porque arde muito. No dia seguinte o couro cabeludo fica cheio de
machucados. A progressiva ainda é pior, pois, além de arder os olhos, provoca
inchaço no rosto inteiro - disse.

Alta temporada de
transtornos
De acordo com a dermatologista Maria Dolores da Costa, o
período de dezembro a fevereiro é o que apresenta o maior número de casos de
reações alérgicas e inesperadas relacionadas a tratamentos químicos capilares.
Segundo ela, isso ocorre devido ao fato de que nesta época as pessoas desejam
ficar mais belas para as festas de fim de ano e formaturas. A vontade de
possuir um cabelo extremamente liso, porém, acaba provocando graves
consequências.
- Muitos pacientes já chegam aqui desesperados, com o cabelo
caindo ou feridas na cabeça. O tratamento é ter que parar tudo e esperar o
cabelo crescer naturalmente. Então se a pessoa já estava fazendo aquilo para
ficar bonita, fica desesperada ao ouvir que não poderá fazer nada durante algum
tempo. Mas por causa do custo muitas pessoas acabam se submetendo a tratamentos
até ilegais, e não há como fazer milagre. Há também os transtornos causados por
produtos que ficaram mais tempo no cabelo do que deveriam - disse,
acrescentando que não importa o número de vezes em que a pessoa realizou um
procedimento. A alergia pode se desenvolver a qualquer momento.
A dermatologista ainda explica que os alisamentos
definitivos visam romper as pontes de sulfeto de queratina responsáveis pela
estrutura ondulada do cabelo. Os tratamentos podem ser à base de hidróxido de
sódio, lítio, potássio ou tioglicolato de amônia - além do hidróxido de
guanidina, entre outros. Embora a utilização da maioria deles seja comum e
permitida nos estabelecimentos, os clientes não estão livres de surpresas.
Maria Dolores frisa que o mais importante para manter os
cabelos saudáveis é evitar procedimentos químicos com intervalo menor do que
três meses, pois o fio não suporta. Além de não misturar químicas, como tintura
e alisamento.
- Tem que dar tempo para o cabelo se recuperar. As pessoas
agora têm que cobrar mais do profissional também. Saber quais são os componentes
do produto, ficar atento em relação ao tempo em que deve ficar em contato com o
couro cabeludo - falou.
A polêmica do formol
O formol está entre os produtos químicos que vêm gerando
maior polêmica nos salões de beleza. Apesar de proibido pela Anvisa (Agência
Nacional de Vigilância Sanitária) desde 2009, o produto ainda é utilizado como
alisante em diversos estabelecimentos. De acordo com a agência, o formol só
pode ser utilizado em produtos cosméticos capilares apenas na função de
conservante (com limite máximo de 0,2%) e apenas durante a fabricação do
produto. A adição de formol, glutaraldeído ou qualquer outra substância a um
produto acabado (pronto para uso) constitui infração sanitária, estando o estabelecimento
que adota esta prática sujeito às sanções administrativas, cíveis e penais
cabíveis, sendo que adulteração desses produtos configura crime hediondo.
Segundo a dermatologista Maria Dolores Marques, o formol se tornou o mais comum
por se tratar de um processo rápido e que deixa os cabelos lisos e com brilho
intenso. O formol, na verdade, é o formaldeído a 37%, cuja venda em farmácias é
proibida. A solução é misturada à queratina líquida (que consiste em
aminoácidos carregados positivamente no creme condicionador); o produto final é
aplicado nos fios com auxilio do pente e, em seguida, é utilizado o secador e a
prancha alisadora. Esses componentes formam um filme que mantém o cabelo rijo e
liso, porém danificado.
- O efeito é o mesmo da Maçã do Amor. Por fora o cabelo fica
brilhante e belo, mas por dentro desidratado e quebradiço, pronto para
apodrecer - comentou.
Ainda de acordo com a ANVISA, o uso do formol como alisante
pode causar irritação, coceira, queimadura, inchaço, descamação e vermelhidão do
couro cabeludo, queda do cabelo, ardência e lacrimejamento dos olhos, falta de
ar, tosse, dor de cabeça, ardência e coceira no nariz devido ao contato direto
com a pele ou com vapor. Várias exposições podem causar também boca amarga,
dores de barriga, enjôos, vômitos, desmaios, feridas na boca, narina e olhos e
câncer nas vias aéreas superiores (nariz, faringe, laringe, traquéia e
brônquios), podendo levar à morte.
A favor da hidratação
Rosilene Mendes Braga é cabeleireira há 18 anos e conta que
já recebeu muitos casos de tratamentos químicos irresponsáveis, principalmente
relacionados à utilização do formol em escovas progressivas.
- Já recebi muitas clientes com queda de cabelo e escamação
no couro cabeludo. Tem gente que ficou careca e já ouvi falar de profissional
que usou até 50% de formol no tratamento. Muitas clientes me pedem para colocar
formol na escova, mas eu digo que no meu salão não fazemos isso e que o único
formol utilizado nos tratamentos é aquele que já vem no produto, com a
quantidade de 0,2% e aprovado pela Anvisa - garantiu, acrescentando que é
possível ter um cabelo liso e bonito sem ter que recorrer ao formol, pois há
outros produtos que produzem o mesmo efeito e ainda deixam o cabelo saudável.
- Uma boa escova com outros produtos menos nocivos, seguidos
de uma hidratação, deixam os cabelos lindos. Um cabelo hidratado e saudável
fica bonito - afirmou, esclarecendo que algumas escovas, como a de Turmalina,
possuem sim uma pequena quantidade de formol, mas que isso depende da marca. Alguns
tipos de escova realmente não possuem o produto, e ela aconselha a verificação
do rótulo.
Com a palavra, os
profissionais
Através do site do DIÁRIO
DO VALE, das redes sociais e durante as entrevistas, muitos profissionais
afirmaram que a pressão para utilizar produtos proibidos como o formol é
grande, tanto da parte dos clientes quanto de fornecedores.
- Sou cabeleireira e muitas vezes sou vítima de vendedores
que tentam nos vender produtos com o percentual elevado de formol. Outras vezes
as clientes nos cobram um produto mais forte ou eficaz. É difícil, a
concorrência está aí e, se a gente não faz, sempre tem alguém que aceita o
pedido. Está difícil trabalhar - contou a cabeleireira e internauta
identificada apenas como Vanessa. Ela ainda acrescenta que as clientes costumam
reclamar se o resultado não é um cabelo extremamente liso.
- É questão de consciência e mudança de atitude. É difícil
para nós profissionais, também - disse.
Já a profissional que se identificou apenas como Shirlei
afirmou que é melhor perder o cliente do que perder a saúde devido aos
problemas que podem ser ocasionados com a utilização do formol.
- Por mais difícil que seja, perder um cliente é melhor do
que perder a saúde, pois hoje estamos bem para cuidar delas, mas se tivermos
algum problema de saúde elas vão para outro salão. Com isso ficamos sem
clientes e sem a nossa saúde. Quando chega uma cliente gestante em meu salão
querendo fazer química ou tintura, a pergunta que faço pra elas é a seguinte:
"Qual o tamanho do amor que você tem pelo seu filho?" E elas desistem -
comentou.