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Um interesse coletivo e motorizado
Publicado em 28/04/2012, às 16h13
 

Busólogos de Volta Redonda têm site e comunidade na internet sobre ônibus

Volta Redonda

Júlio Black

Falar em paixão por automóvel logo traz à lembrança os admiradores de carros em geral, dos mais antigos aos atuais “possantes” – além, é claro, dos amantes da velocidade, que acompanham a Fórmula 1, Stock Car ou qualquer competição sobre rodas. Não faltam também os admiradores de motocicletas e até mesmo a admiração pelos enormes caminhões que rodam o país.

A paixão movida a gasolina – ou melhor, a óleo diesel – vai muito além, entretanto, para um grupo em especial: são os busólogos, apaixonados por tudo que se relaciona ao mundo dos ônibus. Dos modelos de carroceria a motores, pinturas, itinerários, estrutura do transporte público, chassis, bancos e à própria história das empresas, o que interessa a eles é discutir tudo o que envolve o mundo dos “busões”. São cerca de três mil busólogos em todo o Brasil – metade deles no estado do Rio.

E no Sul Fluminense a situação não é diferente: além de uma comunidade no site de relacionamentos Orkut, com cerca de 30 membros, eles também mantém um blog(http://sulfluminensebus.fotopages.com) onde são publicadas as fotos dos novos modelos que chegam à região, além de registrarem os carros mais antigos ainda em atividade – sem esquecer-se daqueles que já foram aposentados.

E dois dos apaixonados pelos coletivos que rodam as cidades e estradas são o assistente administrativo David Costa Freitas, de 28 anos, e o engenheiro Gustavo Leal, 24. A dupla disse que começou a se interessar pelo mundo dos ônibus desde cedo:

- Morava próximo a um ponto final, que ficava numa praça. Meus pais me levavam pra brincar, e eu ficava vendo os ônibus passarem. Aí comecei a perguntar sobre eles aos motoristas que trabalhavam ali. E isso se tornou motivo de piada: meus primos mais velhos se lembram até hoje que eu sabia os números dos ônibus pelo ronco dos motores – disse Gustavo.

- Lembro-me que no início da década de 90 a Viação Sul Fluminense fez uma renovação de frota, e alguns destes ônibus novos foram para o bairro Santa Cruz, onde moro. Aí comecei a me interessar – revelou David.

Gustavo lembra que, nessa época, a família estranhou o interesse pelos ônibus, uma vez que os meninos são incentivados a gostar de carros, caminhões ou motos. Apesar de perguntarem o motivo, ele salienta que nunca foi repreendido.

- Pelo contrário: com cinco anos, meu pai me levou pra conhecer a garagem da empresa que operava as linhas que passam pelo Siderópolis, onde eu morava – lembrou, adiantando que nem por isso deixa de se interessar por outros tipos de veículos:

- Sempre gostei muito de todos os veículos, mas o interesse por ônibus era maior. E agora, trabalhando numa montadora de caminhões e ônibus, o interesse por caminhões cresceu bastante. Busco sempre conhecer as novidades do mercado e as notícias das montadoras em geral – afirmou Gustavo.

David ressalta que o interesse vai além dos chassis, motores e montadoras.

- Eu tenho mais interesse em entender como funcionam os sistemas de transporte, e o que deve ser feito para que a população seja bem atendida – disse ele, acrescentando:

- Temos toda a frota catalogada, com os dados de cada veículo. Isso permite que a gente acompanhe cada mudança, inclusive a aquisição de veículos novos e escala das linhas, entre outras coisas.

O interesse pela questão é compartilhada por Gustavo, que levou para a vida acadêmica o seu interesse pelo transporte público.

 - No meu TCC (Trabalho de Conclusão de Curso) para Engenharia de Produção pela UFF (Universidade Federal Fluminense) abordei a situação das linhas de Volta Redonda. Fiz uma abordagem bem interessante, com dados sobre as linhas, horários, demanda diária e frota utilizada. Nele proponho a readequação das linhas municipais, com a implantação de uma rede integrada e o remanejamento de linhas e horários, de acordo com a demanda atual. Fiz um bom trabalho, que foi bem avaliado pela banca julgadora, e aproveitei um pouco de meus conhecimentos, tanto acadêmicos quanto do hobby, pra propor melhorias no transporte público da cidade - explicou.

 

Na internet

Interesses acadêmicos à parte, não basta apenas falar de ônibus: é preciso fotografar e divulgar – de preferência na internet. Foi em 2007 que Gustavo começou a fotografar os primeiros coletivos, e em 17 de julho do mesmo ano (aniversário de Volta Redonda) foi feita a primeira postagem no Sul Fluminense Bus.

- Conhecemos outros busólogos via internet, em sites de relacionamentos. Passamos a sair às ruas para fotografar, e decidimos montar o site para mostrar aos busólogos do Brasil as novidades dos ônibus da nossa região. Desde então foram 170 atualizações, e última média que apuramos nos registros do site era de aproximadamente 300 visualizações diárias. Após as sessões de fotos, tanto em garagens quanto nas ruas, selecionamos as melhores, editamos e colocamos no ar.

- Temos uma comunidade no Orkut, onde postamos não apenas isso, mas também debatemos sobre as condições dos veículos e como anda o transporte não só em Volta Redonda, mas em toda a região – destacou David.

 

Informações privilegiadas

Os interessados pela busologia na cidade não se contentam apenas em tirar fotos dos ônibus “em ação”. Saber das novidades e compartilhá-las com os companheiros faz parte do cotidiano do grupo. Por isso, a visita às garagens das empresas se tornou uma constante – mesmo que, eventualmente, sob o signo da desconfiança:

- No início foi novidade, as empresas questionavam o motivo do interesse. Hoje, a maioria delas nos recebe muito bem, permitindo nossa visita sempre que veículos novos são adquiridos; outras até nos avisam quando adquirem novos ônibus. Mas ainda há empresas reticentes ao hobby, não permitindo as visitações – lembra Gustavo.

O contato com quem coloca os veículos para rodar também é fundamental.

- Nossa maior fonte de informações vem dos próprios funcionários, que nos conhecem e avisam quando as empresas vão às compras. Mas há empresas que nos enviam até e-mails convidando a conhecer os novos veículos. Conversamos também sobre a situação das linhas em que trabalham, como os ônibus são escalados, o fluxo de passageiros, itinerário, etc. – explicou.

Com tanto conhecimento sobre o assunto, David diz que é normal enviarem tanto às empresas quanto à Suser (Superintendência de Serviços Rodoviários, responsável pelo trânsito e o transporte público da cidade) sugestões que julgam pertinentes para melhorar o setor.

- Infelizmente a Suser é pouco receptiva a ideias e sugestões. Sempre que possível, entramos em contato com as empresas para falar sobre o que precisa ser mudado. Algumas delas respondem, outras não – pontuou.

Gustavo aproveita para avaliar a condição da frota de ônibus da cidade:

- Ela é relativamente nova, as empresas tem se esforçado nas renovações, mas ainda há muito o que fazer. Adequar os itinerários e horários à realidade atual é a principal necessidade, mas o conforto dos usuários também merece atenção. Temos uma frota razoável, que necessita de ajustes para oferecer um serviço de qualidade aos passageiros - analisou.

E, como todo busólogo que se preze, ele tem suas preferências na hora de escolher o seu modelo preferido de coletivo:

- Gosto muito dos modelos fabricados pela Marcopolo, que, na minha opinião, oferecem o maior conforto aos passageiros. Mas tudo depende da configuração dos veículos: se bem ajustados, todas as carrocerias podem ser agradáveis para uma boa viagem. Quanto aos chassis, eu curto todos, mas sou suspeito pra falar: os ônibus Volkswagen são os meus favoritos – encerrou.

 
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