
Volta Redonda
Júlio Black
Falar em paixão
por automóvel logo traz à lembrança os admiradores de carros em geral, dos mais
antigos aos atuais “possantes” – além, é claro, dos amantes da velocidade, que
acompanham a Fórmula 1, Stock Car ou qualquer competição sobre rodas. Não
faltam também os admiradores de motocicletas e até mesmo a admiração pelos enormes
caminhões que rodam o país.
A paixão movida a
gasolina – ou melhor, a óleo diesel – vai muito além, entretanto, para um grupo
em especial: são os busólogos, apaixonados por tudo que se relaciona ao mundo
dos ônibus. Dos modelos de carroceria a motores, pinturas, itinerários,
estrutura do transporte público, chassis, bancos e à própria história das
empresas, o que interessa a eles é discutir tudo o que envolve o mundo dos
“busões”. São cerca de três mil busólogos em todo o Brasil – metade deles no
estado do Rio.
E no Sul
Fluminense a situação não é diferente: além de uma comunidade no site de
relacionamentos Orkut, com cerca de 30 membros, eles também mantém um blog(http://sulfluminensebus.fotopages.com) onde são publicadas as fotos dos novos
modelos que chegam à região, além de registrarem os carros mais antigos ainda
em atividade – sem esquecer-se daqueles que já foram aposentados.
E dois dos
apaixonados pelos coletivos que rodam as cidades e estradas são o assistente
administrativo David Costa Freitas, de 28 anos, e o engenheiro Gustavo Leal,
24. A dupla disse que começou a se interessar pelo mundo dos ônibus desde cedo:
- Morava próximo
a um ponto final, que ficava numa praça. Meus pais me levavam pra brincar, e eu
ficava vendo os ônibus passarem. Aí comecei a perguntar sobre eles aos
motoristas que trabalhavam ali. E isso se tornou motivo de piada: meus primos
mais velhos se lembram até hoje que eu sabia os números dos ônibus pelo ronco
dos motores – disse Gustavo.
- Lembro-me que
no início da década de 90 a Viação Sul Fluminense fez uma renovação de frota, e
alguns destes ônibus novos foram para o bairro Santa Cruz, onde moro. Aí
comecei a me interessar – revelou David.
Gustavo lembra
que, nessa época, a família estranhou o interesse pelos ônibus, uma vez que os
meninos são incentivados a gostar de carros, caminhões ou motos. Apesar de
perguntarem o motivo, ele salienta que nunca foi repreendido.
- Pelo contrário:
com cinco anos, meu pai me levou pra conhecer a garagem da empresa que operava
as linhas que passam pelo Siderópolis, onde eu morava – lembrou, adiantando que
nem por isso deixa de se interessar por outros tipos de veículos:
- Sempre gostei
muito de todos os veículos, mas o interesse por ônibus era maior. E agora,
trabalhando numa montadora de caminhões e ônibus, o interesse por caminhões
cresceu bastante. Busco sempre conhecer as novidades do mercado e as notícias
das montadoras em geral – afirmou Gustavo.
David ressalta
que o interesse vai além dos chassis, motores e montadoras.
- Eu tenho mais
interesse em entender como funcionam os sistemas de transporte, e o que deve
ser feito para que a população seja bem atendida – disse ele, acrescentando:
- Temos toda a
frota catalogada, com os dados de cada veículo. Isso permite que a gente acompanhe
cada mudança, inclusive a aquisição de veículos novos e escala das linhas,
entre outras coisas.
O interesse pela
questão é compartilhada por Gustavo, que levou para a vida acadêmica o seu
interesse pelo transporte público.
- No meu
TCC (Trabalho de Conclusão de Curso) para Engenharia de Produção pela UFF
(Universidade Federal Fluminense) abordei a situação das linhas de Volta
Redonda. Fiz uma abordagem bem interessante, com dados sobre as linhas,
horários, demanda diária e frota utilizada. Nele proponho a readequação das
linhas municipais, com a implantação de uma rede integrada e o remanejamento de
linhas e horários, de acordo com a demanda atual. Fiz um bom trabalho, que foi
bem avaliado pela banca julgadora, e aproveitei um pouco de meus conhecimentos,
tanto acadêmicos quanto do hobby, pra propor melhorias no transporte público da
cidade - explicou.
Na internet
Interesses
acadêmicos à parte, não basta apenas falar de ônibus: é preciso fotografar e
divulgar – de preferência na internet. Foi em 2007 que Gustavo começou a
fotografar os primeiros coletivos, e em 17 de julho do mesmo ano (aniversário
de Volta Redonda) foi feita a primeira postagem no Sul Fluminense Bus.
- Conhecemos
outros busólogos via internet, em sites de relacionamentos. Passamos a sair às
ruas para fotografar, e decidimos montar o site para mostrar aos busólogos do
Brasil as novidades dos ônibus da nossa região. Desde então foram 170
atualizações, e última média que apuramos nos registros do site era de
aproximadamente 300 visualizações diárias. Após as sessões de fotos, tanto em
garagens quanto nas ruas, selecionamos as melhores, editamos e colocamos no ar.
- Temos uma
comunidade no Orkut, onde postamos não apenas isso, mas também debatemos sobre
as condições dos veículos e como anda o transporte não só em Volta Redonda, mas
em toda a região – destacou David.
Informações
privilegiadas
Os interessados
pela busologia na cidade não se contentam apenas em tirar fotos dos ônibus “em
ação”. Saber das novidades e compartilhá-las com os companheiros faz parte do
cotidiano do grupo. Por isso, a visita às garagens das empresas se tornou uma
constante – mesmo que, eventualmente, sob o signo da desconfiança:
- No início foi
novidade, as empresas questionavam o motivo do interesse. Hoje, a maioria delas
nos recebe muito bem, permitindo nossa visita sempre que veículos novos são
adquiridos; outras até nos avisam quando adquirem novos ônibus. Mas ainda há
empresas reticentes ao hobby, não permitindo as visitações – lembra Gustavo.
O contato com
quem coloca os veículos para rodar também é fundamental.
- Nossa maior
fonte de informações vem dos próprios funcionários, que nos conhecem e avisam
quando as empresas vão às compras. Mas há empresas que nos enviam até e-mails
convidando a conhecer os novos veículos. Conversamos também sobre a situação
das linhas em que trabalham, como os ônibus são escalados, o fluxo de
passageiros, itinerário, etc. – explicou.
Com tanto
conhecimento sobre o assunto, David diz que é normal enviarem tanto às empresas
quanto à Suser (Superintendência de Serviços Rodoviários, responsável pelo
trânsito e o transporte público da cidade) sugestões que julgam pertinentes
para melhorar o setor.
- Infelizmente a
Suser é pouco receptiva a ideias e sugestões. Sempre que possível, entramos em
contato com as empresas para falar sobre o que precisa ser mudado. Algumas
delas respondem, outras não – pontuou.
Gustavo aproveita
para avaliar a condição da frota de ônibus da cidade:
- Ela é
relativamente nova, as empresas tem se esforçado nas renovações, mas ainda há
muito o que fazer. Adequar os itinerários e horários à realidade atual é a
principal necessidade, mas o conforto dos usuários também merece atenção. Temos
uma frota razoável, que necessita de ajustes para oferecer um serviço de
qualidade aos passageiros - analisou.
E, como todo
busólogo que se preze, ele tem suas preferências na hora de escolher o seu
modelo preferido de coletivo:
- Gosto muito dos
modelos fabricados pela Marcopolo, que, na minha opinião, oferecem o maior
conforto aos passageiros. Mas tudo depende da configuração dos veículos: se bem
ajustados, todas as carrocerias podem ser agradáveis para uma boa viagem.
Quanto aos chassis, eu curto todos, mas sou suspeito pra falar: os ônibus
Volkswagen são os meus favoritos – encerrou.