
Brasília
Quinze de cada 100 quilowatts de energia elétrica produzida
no Brasil se perdem entre a geração e o consumo. De acordo com o Centro de
Gestão e Estudos Estratégicos (CGEE), ligado ao Ministério de Ciência,
Tecnologia e Inovação (MCTI), a proporção é mais do que o dobro da registrada
em outros países (até 7%) e acima da oferta interna de energia com base em
carvão, gás, petróleo e energia nuclear (que somam 14,4%, segundo o Balanço
Energético Nacional).
A perda de energia (causada principalmente pelo furto por
meio de instalações irregulares, o chamado gato) motivou o CGEE a fazer um
amplo estudo sobre o uso de redes inteligentes (ou smart grids, como são mais
conhecidas em inglês) para gerenciamento da geração, transmissão, distribuição
e consumo de energia elétrica. Até março, o centro publica estudo que
identificará iniciativas no Brasil e no exterior para o desenvolvimento de
tecnologia que monitore o funcionamento do sistema elétrico.
A tecnologia pode informar em tempo real, por exemplo, a
ocorrência de pane e a eventual suspensão do fornecimento. "Quando cai a
energia, seja lá por qual motivo, você liga para a concessionária. Pelo smart
grid, isso passa a ser automático, não precisa ligar", explica Ceres
Cavalcanti, assessora do CGEE. Segundo ela, o smart grid melhora o serviço que
é prestado pelas concessionárias. "Essas empresas conseguirão ter mais
informação para poder prestar o melhor serviço ao seu mercado e a seus
clientes", defende a assessora.
Além das concessionárias, o uso de redes inteligentes
permite que os usuários façam o controle do consumo diretamente. No futuro,
quando houver tarifa diferenciada conforme o horário, os medidores domésticos
informarão quanto está sendo gasto a cada momento e o valor das tarifas
cobradas dando a possibilidade de o consumidor utilizar os eletrodomésticos em
horário de tarifas mais baratas.
Outra possibilidade é tornar o consumidor credor do sistema.
Quem captar energia solar em casa, por exemplo, poderá ter desconto nas
tarifas, pois a rede inteligente identifica a geração doméstica de energia.
"Imagina os consumidores passarem a ser pequenos geradores, vai ser um grande
quebra-cabeça. E aí talvez vai ter de mudar essa política de otimização [do
consumo]. Esse passo não é tão rápido, porém extremamente possível", prevê
Ceres Cavalcanti destacando que "hoje, a informação do sistema elétrico é
direcional. Com o smart grid, passa a ser bidirecional. O consumidor passivo
passa a ser ativo e vai ter vários tipos de serviços".
Para a assessora do CGEE, a adoção do smart grid vai gerar
negócios para a indústria de componentes do sistema elétrico e também para a
área de tecnologia da informação e comunicação. "Isso melhora todo o sistema e
encontramos nisso outras oportunidades. Vai gerar um mercado muito bom para a
indústria. E isso tem vários desdobramentos no sentido de desenvolvimento de
ciência e tecnologia. Tem uma série de linhas de pesquisa que podem vir a
partir daí", destaca.
O uso de redes inteligentes no sistema elétrico vai
possibilitar economia de energia elétrica. O benefício, no entanto, não
isentará o país de continuar investindo na ampliação da geração de energia. "É
maravilhoso investir nesse caminho, mas isso não substitui a expansão
completamente. O país cresce em termos de consumo de energia mais de 5% ao ano,
o que é acima do crescimento do Produto Interno Bruto", pondera Ceres
Cavalcanti que lembra que há demanda reprimida pelo uso da energia, ainda cara
para muitos usuários.