Clarissa Coli
Muitos não
sabem, mas na última quarta-feira, dia 14 de abril, foi comemorado o Dia
Internacional do Café. De tão presente no cotidiano dos brasileiros, a maior
parte da população talvez não se dê conta de que a planta, o grão, o aroma, enfim,
a bebida, permite delinear a história do Brasil - ou pelo menos uma
significativa parte dela.
A
historiadora Ana Seraphim fez essa observação e foi a partir disso que organizou
a exposição, satisfatoriamente batizada de "Histórias de Café". Inaugurada
ontem em Barra do Piraí, a mostra é parte integrante do ‘Circuito Café, Cachaça
e Chorinho' e poderá ser visitada até o dia 25.
- A mostra
foi baseada em um livrinho meu, chamado "Histórias de cafés, sinhás, barões,
quitutes e outras delícias". Nela, como no livro, um barão de café vai contando
a história da qual faz parte. Ele é um personagem atemporal, mas representa
todos os personagens dessa história, cada um à sua época - explica a
historiadora.
Para a
exposição, Ana selecionou 12 painéis em tons de sépia, com imagens datadas,
principalmente, do século XIX. Segundo ela, os painéis são grandes reproduções
das páginas do livro, que vão pontuando fatos importantes ao longo do tempo.
- Sou
fascinada pela história do Vale do Paraíba Fluminense, com ênfase no segundo
reinado (período em que D. Pedro II foi imperador). Nessa época, nossa região
era o ícone do império. Ele costumava dizer: "O Brasil é o Vale". Por isso, é
importante conhecer a história - ressalta Ana, que é professora de história.
Ela conta
que a região do Vale do Paraíba Fluminense teve uma colonização tardia em
relação ao restante do país, devido a serra, à presença de índios e de animais
nas matas. Não havia aqui nada que atraísse os colonizadores nem motivos para
desmatar essas florestas.
- Quando se
descobre o ouro das Minas Gerais, os tropeiros começam, aos poucos, a abrir
trilhas pelas matas da região, a princípio, para fugir da fiscalização. Entre o
litoral e as minas, começam a surgir assentamentos ainda incipientes - conta.
As
primeiras mudas de café, de acordo com a professora, chegaram ao Brasil pela
região Norte, onde não vingaram. Trazidas ao Rio de Janeiro, as mudas passaram
a ser plantadas em todo lugar, sem muito sucesso, até que chegaram ao lado de
cá. Foi uma plantinha bonita e de aroma agradável a maior motivadora da
colonização da região. Com as primeiras plantações, foi aumentando o número de
famílias que se instalavam aqui. Vinham de toda a parte, mas principalmente de
Minas Gerais, onde tinham um modo de vida muito peculiar.
- As
fazendas cresceram e o café começou a dar tão certo, que os tropeiros não davam
conta de carregar os milhões de sacas colhidos. Assim, chegou a malha
ferroviária, na região, antes de todo o restante do país. Alguns fazendeiros
eram tão poderosos que ramificavam a linha, fazendo o trem passar por dentro de
suas terras. Era a maior riqueza, como nunca vista antes, no Brasil - destaca
Ana.
Contando a história
De acordo
com a professora, pela primeira vez, um produto brasileiro tinha força de venda
no mercado internacional. O café passou a ser o moinho da economia do Brasil. E
o Vale do Paraíba Fluminense era responsável por grande parte dessa produção.
- Por isso,
falar da nossa história regional significa falar de café. E essa história
precisa ser conhecida, principalmente por nós. Como eu, há muita gente na
região pesquisando e ajudando a perpetuá-la. Como preciso passar a informação,
eu uso as exposições - conta a historiadora, que lança mão de obras de Debret,
Rugendas, Victor, Mark Ferrez.
Esses
artistas registraram a época em imagens que Ana mescla com fotografias das
fazendas da região. Além de historiadora e professora, ela também trabalha com
turismo pedagógico e atua como diretora de turismo do Instituto Preservale.
- É uma
organização de desenvolvimento e preservação do Vale do Paraíba Fluminense.
Começou com quatro fazendas e hoje já são mais de 30 locações abertas para o
turismo cultural e para contar a história da nossa região - apresenta a
diretora.
Somente este
mês, Ana inaugura três exposições tendo o café como tema. "Café, um grão de
história" será lançada hoje, no Palácio Barão de Guapy (antiga Câmara Municipal),
em Barra Mansa. Essa mostra é baseada no livro homônimo de Sérgio Túlio Caldas,
com imagens de Vitor D'Aléssio, publicada pela editora Dialeto. A historiadora
também expõe no Centro de Cultura Fazenda da Posse (Barra Mansa), a mostra "Império
do Café", onde conta um pouco da cultura dessa planta no Brasil e também em
outros lugares do mundo, onde é uma bebida sofisticada.
Concluindo,
a historiadora ressalta a importância de se visitar a exposição e,
consequentemente, conhecer a história da região.
- Nossa
intenção é deixar a história e fazer com que ela se perpetue. Estudar a
história contemporânea é importante, mas só é possível se antes houver um
entendimento da história passada. Assim, entenderemos o futuro - finaliza.
Serviço
"Histórias de Café" - por Sérgio Alves, pode ser visitada
até 25 de abril, entre 8h e 21h30, no Hotel Village das Águas, no Complexo
Aldeia das Águas Park Resort. O hotel fica na BR-393, Km-271, Barra do Piraí.
Informações:
(24) 3348-1108 e (24) 2433-1122 / www.aldeiadasaguasresort.com.br.