
Jorge Luiz Calife
A década de 1960 foi uma era de ouro
para a ficção científica cinematográfica. A corrida espacial e a Guerra Fria
ocupavam as manchetes dos jornais e os cineastas soltavam a imaginação. Agora,
alguns dos melhores filmes dessa época podem ser vistos de graça na internet,
no site Youtube. São produções que caíram no domínio público e, portanto, podem
ser disponibilizadas para download sem qualquer culpa ou acusação de pirataria.
São filmes que dão um banho de criatividade em muitas produções de hoje em dia.
Semana passada eu voltei à infância
assistindo a dois desses filmes, o italiano "O planeta dos homens mortos" e o
americano "Passagem para o futuro". Quando eu tinha dez anos de idade esses
filmes passavam na matinê do cinema Trindade, lá no bairro da Abolição, no Rio
de Janeiro. Jamais imaginei que no futuro, em 2012, eu poderia rever esses mesmos
filmes na telinha do meu computador. Afinal, em 1960, computador também era
coisa de ficção científica.
"O planeta dos homens mortos" está
disponível no Youtube na versão em inglês, intitulada "Batlle of the worlds". O
diretor é o italiano Antonio Margueriti, que assinava seus filmes com o
pseudônimo Antony Dawson. Quando esteve em Hollywood, Margueriti descobriu que
seu sobrenome, em inglês, significava margarida. Cismou que iam pensar que
Antonio Margarida era um cineasta gay e mudou de nome. Numa carreira que só
terminou com sua morte, em 2002, este italiano dirigiu dezenas de filmes,
incluindo faroestes e fitas de terror. Acabou homenageado por Quentin Tarantino
que deu seu nome a um personagem do filme "Bastardos inglórios".
Mas o nome Antonio Margueriti hoje é
lembrado pela tetralogia Gamma One, quatro filmes de ficção científica que ele
rodou entre 1960 e 1965, usando os mesmos cenários e as mesmas maquetes.
O "Planeta dos homens mortos" é o
segundo da tetralogia. Claude Rains ("Casablanca") é o professor Benson, um
cientista excêntrico que vive isolado em uma ilha do mar Mediterrâneo no ano de
2022. Os líderes mundiais buscam sua ajuda quando um estranho planetoide se
aproxima da Terra. A humanidade entra em pânico achando que é o fim do mundo,
mas Benson suspeita que se trata de uma invasão extraterrestre. Quando naves
espaciais são enviadas para pousar no mundo errante são interceptadas por
discos voadores e começa uma guerra espacial.
As cenas do combate entre os
foguetes da Terra e os discos voadores são mais realistas do que as batalhas de
Guerra nas Estrelas. Os foguetes do cineasta italiano obedecem às leis da
física e só disparam seus motores na hora de acelerar ou mudar de órbita. No
final, os heróis conseguem penetrar no planeta e descobrem que era o lar de uma
raça extinta que deixou um super computador controlando tudo. Nada mal para um
filme de matinê.
Futuro
"Passagem para o Futuro" (The time
travelers" no original) é mais pessimista e reflete os medos da Guerra Fria.
Começa com um grupo de cientistas da Universidade da Califórnia testando uma
máquina do tempo. A engenhoca parece uma enorme televisão de tela plana mas, em
teoria, será capaz de mostrar cenas do passado e do futuro. Na verdade, a coisa
acaba abrindo um portal, uma fenda no tempo entre o ano de 1964 e o ano de
2071. E neste mundo, 107 anos no futuro, a terra é um deserto calcinado,
povoado por mutantes, resultado de uma guerra nuclear entre os Estados Unidos e
a União Soviética.
Os cientistas atravessam o portal e
encontram uma comunidade de humanos vivendo num paraíso tecnológico
subterrâneo. As mulheres tomam banho de sol nuas em câmaras ultravioleta, os
vegetais crescem instantaneamente em estufas e o teletransporte é uma
realidade. Mas a ameaça dos mutantes, que dominam a superfície, leva os homens
e mulheres do futuro a buscarem uma solução radical. Eles estão construindo um
foguete fotônico e vão se mudar para um planeta da estrela Alfa Centauri.
Já não se fazem mais filmes assim
hoje em dia. E
nem é preciso. Eles podem ser vistos de graça, na internet.