
Jorge Luiz Calife
As coisas andam caindo no Rio de
Janeiro. Semana passada três prédios ruíram na Cinelândia, no centro cultural
da ex-cidade maravilhosa. Vinte duas pessoas morreram e até agora não chegaram
a uma conclusão sobre a causa. A principal suspeita refere-se a uma obra no nono
andar do edifício Liberdade, que estava sendo executada sem a supervisão de um
engenheiro. Enquanto a fumaça e a poeira da tragédia ainda tomavam conta das
imediações do Teatro Municipal, em outro ponto da cidade, a atriz Danielle
Winits e seu parceiro Thiago Fragoso despencavam sobre a plateia durante o espetáculo
"Xanadu". Os cabos de aço que sustentavam os atores também não tinham sido
inspecionados por um engenheiro. Parece que engenheiro virou coisa supérflua no
país do "jeitinho brasileiro".
O Rio de Janeiro é uma cidade linda,
tem tudo para ser um pólo turístico internacional, mas sua história é marcada
por tragédias que podiam ser evitadas. Tragédias provocadas por obras e
procedimentos feitos sem a seriedade e a supervisão necessárias. Em alguns
casos morrem dez, vinte pessoas, em outros, apenas um ator e uma atriz passam
uma noite em um hospital, mas o dano para a imagem da cidade e do Brasil, fica
para sempre.
O desabamento do edifício Liberdade,
que levou com ele outros dois prédios, não é o primeiro caso. A história do Rio
registra o desabamento do elevado Paulo de Frontin, do Supermercado Sendas e do
edifício Palace 2.
Lembro muito bem dessas três
tragédias porque morava no Rio na ocasião. O elevado faz a ligação do centro da
cidade com a Zona Sul através do túnel Rebouças. Quando foi construído, na
década de 1960, era uma obra imponente, grandiosa. Um dia parte dele desabou,
assim, sem mais nem menos, esmagando vários carros e um ônibus cheio de gente.
Algumas pessoas morreram na hora, outras tiveram membros amputados. A causa, apurada
depois, envolvia a qualidade do concreto usado na obra.
O choque foi tão grande que Chico
Buarque de Holanda incluiu um comentário em uma de suas canções, onde ele pede
ao amigo para ter cuidado "com viadutos e com aviões". Alguns anos depois
desabou o supermercado, que era uma construção moderna, recém-inaugurada, e
ficava perto de onde eu morava, no Pilares, na Zona Norte do Rio. No dia do
desabamento dava para ver a nuvem de poeira no local, da janela do meu quarto.
O Palace 2 foi mais recente e
envolveu um prédio moderno, erguido por uma construtora famosa na Barra da
Tijuca, em área nobre da cidade. Agora, aconteceu de novo e a televisão mostrou
cenas das pessoas fugindo em pânico e das máquinas revolvendo os escombros.
Cenas comuns em regiões atingidas por terremotos. No Brasil não é preciso
terremoto, os prédios caem por falhas na construção ou na execução de obras.
Caem porque falta responsabilidade na fiscalização, porque as pessoas acham que
fica mais barato economizar na mistura de concreto, ou colocar a gerente do
departamento de pessoal para fazer o trabalho do engenheiro.

No teatro
O caso do musical "Xanadu" é outro
exemplo de irresponsabilidade. Teatro é teatro, não é circo, mas os produtores
de peças teatrais insistem em colocar malabarismos circenses em espetáculos
teatrais como meio de atrair o público. Mas nem todo mundo tem a experiência do
Cirque de Soleil, que faz apresentações com pessoas penduradas em cabos há
décadas, mas tem a tecnologia e o conhecimento necessário para fazer isso com
segurança.
Curioso que "Xanadu", a peça, é
baseada no filme estrelado em 1980 pela cantora Olívia Newton John e o
dançarino Gene Kelly. No filme não há acrobacias nem personagens voando. As
musas do Olimpo se transformam em bólidos luminosos quando voam de um lugar para
outro de Los Angeles. Tudo feito com efeitos visuais, sem qualquer risco para
os atores.
No teatro cismaram de fazer os
personagens principais voarem sobre a plateia como se fossem a Wendy e o Peter
Pan. Felizmente ninguém se machucou gravemente. Em Nova Iorque, durante
uma peça sobre o Homem Aranha, um ator caiu da teia e ficou gravemente ferido,
há alguns anos.
Seria ótimo se alguma coisa boa
surgisse da tragédia do edifício Liberdade, e do vexame do "Xanadu". Mas
infelizmente os brasileiros não aprendem com seus erros. Continuamos a ser o
país do jeitinho e do improviso. E as tragédias vão continuar acontecendo.