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A queda dos prédios e da Danielle Winits
Publicado em 3/2/2012, às 08h57
 
Última atualização em 3/2/2012, às 08h57

Três prédios ruíram na Cinelândia, no centro cultural da ex-cidade maravilhosa matando 22 pessoas

Jorge Luiz Calife

As coisas andam caindo no Rio de Janeiro. Semana passada três prédios ruíram na Cinelândia, no centro cultural da ex-cidade maravilhosa. Vinte duas pessoas morreram e até agora não chegaram a uma conclusão sobre a causa. A principal suspeita refere-se a uma obra no nono andar do edifício Liberdade, que estava sendo executada sem a supervisão de um engenheiro. Enquanto a fumaça e a poeira da tragédia ainda tomavam conta das imediações do Teatro Municipal, em outro ponto da cidade, a atriz Danielle Winits e seu parceiro Thiago Fragoso despencavam sobre a plateia durante o espetáculo "Xanadu". Os cabos de aço que sustentavam os atores também não tinham sido inspecionados por um engenheiro. Parece que engenheiro virou coisa supérflua no país do "jeitinho brasileiro".

O Rio de Janeiro é uma cidade linda, tem tudo para ser um pólo turístico internacional, mas sua história é marcada por tragédias que podiam ser evitadas. Tragédias provocadas por obras e procedimentos feitos sem a seriedade e a supervisão necessárias. Em alguns casos morrem dez, vinte pessoas, em outros, apenas um ator e uma atriz passam uma noite em um hospital, mas o dano para a imagem da cidade e do Brasil, fica para sempre.

O desabamento do edifício Liberdade, que levou com ele outros dois prédios, não é o primeiro caso. A história do Rio registra o desabamento do elevado Paulo de Frontin, do Supermercado Sendas e do edifício Palace 2.

Lembro muito bem dessas três tragédias porque morava no Rio na ocasião. O elevado faz a ligação do centro da cidade com a Zona Sul através do túnel Rebouças. Quando foi construído, na década de 1960, era uma obra imponente, grandiosa. Um dia parte dele desabou, assim, sem mais nem menos, esmagando vários carros e um ônibus cheio de gente. Algumas pessoas morreram na hora, outras tiveram membros amputados. A causa, apurada depois, envolvia a qualidade do concreto usado na obra.

O choque foi tão grande que Chico Buarque de Holanda incluiu um comentário em uma de suas canções, onde ele pede ao amigo para ter cuidado "com viadutos e com aviões". Alguns anos depois desabou o supermercado, que era uma construção moderna, recém-inaugurada, e ficava perto de onde eu morava, no Pilares, na Zona Norte do Rio. No dia do desabamento dava para ver a nuvem de poeira no local, da janela do meu quarto.

O Palace 2 foi mais recente e envolveu um prédio moderno, erguido por uma construtora famosa na Barra da Tijuca, em área nobre da cidade. Agora, aconteceu de novo e a televisão mostrou cenas das pessoas fugindo em pânico e das máquinas revolvendo os escombros. Cenas comuns em regiões atingidas por terremotos. No Brasil não é preciso terremoto, os prédios caem por falhas na construção ou na execução de obras. Caem porque falta responsabilidade na fiscalização, porque as pessoas acham que fica mais barato economizar na mistura de concreto, ou colocar a gerente do departamento de pessoal para fazer o trabalho do engenheiro.

Danielle Winits despencou sobre a plateia durante o espetáculo ‘Xanadu’

No teatro

O caso do musical "Xanadu" é outro exemplo de irresponsabilidade. Teatro é teatro, não é circo, mas os produtores de peças teatrais insistem em colocar malabarismos circenses em espetáculos teatrais como meio de atrair o público. Mas nem todo mundo tem a experiência do Cirque de Soleil, que faz apresentações com pessoas penduradas em cabos há décadas, mas tem a tecnologia e o conhecimento necessário para fazer isso com segurança.

Curioso que "Xanadu", a peça, é baseada no filme estrelado em 1980 pela cantora Olívia Newton John e o dançarino Gene Kelly. No filme não há acrobacias nem personagens voando. As musas do Olimpo se transformam em bólidos luminosos quando voam de um lugar para outro de Los Angeles. Tudo feito com efeitos visuais, sem qualquer risco para os atores.

No teatro cismaram de fazer os personagens principais voarem sobre a plateia como se fossem a Wendy e o Peter Pan. Felizmente ninguém se machucou gravemente. Em Nova Iorque, durante uma peça sobre o Homem Aranha, um ator caiu da teia e ficou gravemente ferido, há alguns anos.

Seria ótimo se alguma coisa boa surgisse da tragédia do edifício Liberdade, e do vexame do "Xanadu". Mas infelizmente os brasileiros não aprendem com seus erros. Continuamos a ser o país do jeitinho e do improviso. E as tragédias vão continuar acontecendo.

 
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