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Fim de viagem merece atenção redobrada
Publicado em 7/1/2012, às 18h04
 
Última atualização em 7/1/2012, às 18h04

Desatenção no trecho final da viagem pode provocar acidentes; cautela é recomendada

Clarissa Coli

Volta Redonda

 

Mais do que a ocorrência de acidentes nas estradas, um fato que chama a atenção durante o período de férias é quando eles acontecem próximo ao destino de quem viaja. Não é difícil relacionar essa incidência ao fato de que a sensação de que a viagem está prestes a acabar faz o motorista relaxar, desviando a atenção da estrada. Essa constatação é da psicóloga Viviane Andrade, de Volta Redonda, que acredita na influência da mente no comportamento de uma pessoa conduzindo um veículo.

- A atenção é um processo psicológico pelo qual concentramos nossos esforços para uma determinada tarefa. Quando o indivíduo observa que já realizou grande parte da proposta, há um relaxamento natural do cérebro. Ele já resolveu esse problema e está buscando uma nova tarefa, entretanto a viagem ainda não acabou - explicou Viviane.

Apesar da teoria defendida, a psicóloga também acredita que a falta de concentração psicológica - causa de muitos acidentes - está diretamente ligada à falta de educação no trânsito. Ela citou a música alta, conversas, discussões e álcool como exemplos de fatores que normalmente desviam a atenção do condutor. Para ela, a causa da desatenção deve ser detectada, antes de qualquer coisa.

- É preciso um sistema que eduque e cobre mais do condutor. As leis ainda são muito brandas para quem não as cumpre. Se o motorista está desempenhando uma atividade séria que envolve vidas, deve se concentrar e não desempenhar outras tarefas concomitantemente - afirmou, classificando como propensas a acidentes mulheres que se maquiam, arrumam as unhas ou falam ao celular enquanto dirigem.

Se não há problemas enquanto o motorista mantém sua atenção na estrada, o mesmo não pode ser dito para aqueles que recebem uma notícia ruim - ou muito boa - ou ainda um susto durante a viagem. O transtorno mental é parecido com o que ocorre quando o condutor sente que, enfim, chegou o fim da jornada. Por isso, nestes casos, a atenção deve ser redobrada.

- Se o condutor percebe que sua atenção foi reduzida, deve parar em lugar para se refazer da sua desconcentração. Pode ser tomando um café, uma água, ligando para alguém. Se for possível, o melhor é passar a direção para outra pessoa - aconselhou Viviane.

 

Enfrentando o trauma

 

Toda pessoa conhece alguém ou pelo menos um caso em que a vítima de acidente - seja no trânsito ou na estrada - tenha ficado com trauma psicológico. De acordo com a psicóloga, é normal que esse quadro permaneça por até um ano.

- O trauma se manifesta não só para dirigir, mas também em outros momentos, como na hora de dormir, por exemplo. O indivíduo deve primeiramente tentar, por meio dos próprios recursos, se livrar desse mal. Caso persista, ele poderá buscar ajuda terapêutica - orientou a psicóloga.

Como é comum a ocorrência de acidentes por desvio de atenção ou até mesmo sono (no caso de quem viaja à noite), a profissional defende a criação de um auxílio psicológico nas estradas. Ela ressaltou que, além da ajuda física, a ajuda psicológica é igualmente necessária.

- Não se trata de tratamento, mas de uma assistência psicológica. Isso não evitaria o trauma, mas indicaria um caminho para que o acidentado não ficasse tão desesperado. Muitas vezes, nesta hora, há uma solidão muito grande, as pessoas tentam ajudar fisicamente a vítima, mas se esquecem de dar estrutura psicológica. O trauma poderia ser vivenciado de maneira diferente - afirmou, sugerindo ainda um tratamento de um ano após o acidente.

Para quem está indo - ou voltando - de férias ou de outro tipo e passeio, o conselho da psicóloga é que as famílias programem a viagem para ser realizada durante o dia, descansados e obedecendo aos limites da velocidade. Para ela, vale lembrar nessa hora todas as regras e leis que, para muitos, podem parecer antiquadas. Como uma espécie de alerta, Viviane classifica o carro como um objeto de poder que, usado de maneira incorreta, pode representar perigo. 

- Psicanaliticamente falando, ele aparece como um símbolo fálico, de modo que atingir velocidades altíssimas se impõe muitas vezes como uma maneira de mostrar poder. Seria importante que as campanhas mostrassem ao ser humano outras formas de ser potente, o que é difícil em uma sociedade capitalista. Lembro-me de uma propaganda na minha infância que dizia: "O carro é uma arma e a vítima pode ser você". É meio amedrontadora, mas interessante por mostrar o perigo que é o automóvel.

 

Para a polícia, acidentes estão relacionados ao cansaço

 

Além da ansiedade para chegar, o inspetor Wladimir Freres, chefe da 3ª Delegacia da Polícia Rodoviária Federal - responsável pela Rodovia Rio-Santos (BR-101) - destacou como causa de acidentes em término de viagem o cansaço após um longo tempo dirigindo. Para o policial, as condições psicológicas do motorista também dependem das condições do veículo e da estrada em que está.

- Depois de muitas horas de viagem, a pessoa sabe que está chegando e acaba relaxando, principalmente a pessoa que conhece o caminho. Nesse momento, o cansaço pode ser mais forte - afirmou o inspetor Freres.

Para explicar, o policial sugeriu dois cenários que podem ocasionar acidentes perto do fim da viagem. No primeiro, o motorista pega a estrada com pressa para chegar; no segundo, vai com calma, mas no fim, o cansaço fará com que ele se apresse.

- Para chegar no horário, o condutor da primeira situação vai correr, superando os limites de velocidade e fazendo ultrapassagens. Esses mesmos métodos serão utilizados pelo motorista da segunda situação que, cansado, vai querer chegar logo ao destino. Ambos os casos são favoráveis a acidentes - concluiu.

Para evitar qualquer um dos quadros desenhados, o inspetor Freres deixou uma recomendação genérica da Polícia Rodoviária Federal: se programar para a viagem. Para ele, essa medida já diminui o risco de acidentes.

- Sabendo aproximadamente o tempo gasto para chegar, é bom calcular o tempo de viagem com duas horas de acréscimo. Assim, fica-se com folga para viajar sem a necessidade de correr ou fazer ultrapassagens. Além disso, há uma reserva para eventuais chuvas ou deslizamentos no caminho, tão comuns nesta época do ano - sugeriu.

Para quem se encontra no trecho final da viagem, o policial faz uma orientação mais específica: pare para descansar, tomar um café ou uma água e esticar as pernas. Citando uma pesquisa inglesa que compara com o álcool os efeitos no organismo da falta de sono, o inspetor Freres aconselhou oito horas de sono antes de encarar a estrada.

- Durma bem e viaje durante o dia. Se for uma viagem de três horas ou mais, é importante fazer uma parada no meio do caminho, de 15 minutos a meia hora. Assim, dá para fazer o restante da viagem mais tranquilo.

 
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